Por Prof. Dr. Raimundo Aben Athar
Introdução
Há o que parece ser uma bomba de efeito retardado prestes a explodir na área contábil brasileira. Os dados referentes ao período de 2018 a 2024 que serão apresentados nesta breve pensata, estão relacionados às matrículas, à finalização dos cursos de ciências contábeis, aos registros dos profissionais de contabilidade, aos registros das empresa contábeis no sistema do Conselho Federal de Contabilidade - CFC e à relação com as empresas brasileiras MEIs, micros, pequenas, médias e grandes. Tais interrelações, desenham um cenário de contração severa e um possível gargalo no futuro de eficiência para a profissão contábil no Brasil e, num outro extremo, um enorme contingente de Contadores formados, por algum motivo, sem registro oficial no sistema CFC.
Os dados da tabela 1, a seguir, apontam uma taxa de eficiência acadêmica de pouco mais de 17%, ou seja, uma evasão massiva. Tal dado está a indicar que, para cada 100 alunos que iniciam o sonho de ser contador, cerca de 83 alunos desistem ou ficam retidos pelo caminho.
Analisando a relação entre a queda nas matrículas e o baixo índice de conclusão, pode-se projetar uma situação bastante crítica sobre o setor de profissionais contábeis, em futuro não muito distante.
Tabela 1
Para além do fato de que existe um enorme desperdício de recursos (públicos e privados) em vagas que não resultam em profissionais para o mercado, a queda drástica nas matrículas é um possível sinal de alerta para um "apagão" na profissão contábil, isto porque, parece ser uma tendência o fato de que a carreira de profissional contábil está perdendo apelo para as novas gerações, possivelmente devido a cinco fatores, interdependentes e interagentes:
(1) a percepção de que a contabilidade será absolutamente automatizada;
(2) uma profissão de alta carga burocrática e baixa flexibilidade;
(3) o gargalo do exame de suficiência. O formando percebe que o diploma, por si só, não garante o exercício da profissão;
(4) ineficiências do modelo de ensino nos cursos de Ciências Contábeis e
(5) a profissão realmente está se tornando um "funil" onde apenas uma elite resiliente consegue chegar ao fim, o que pode, no futuro, até mesmo, elitizar os honorários contábeis.
O período de 2018 a 2024, indica uma redução anual média de 6.378 concluintes. Este é
o dado que mais pode afetar as empresas, observe que, se em 2018 formávamos um contingente de 53.271 bacharéis, em 2024 estamos formando somente 15.972 futuros profissionais contábeis, ou seja, uma redução de 70% em apenas 07 anos.
A tabela 2 compara o número de profissionais com o número de escritórios contábeis registrados no sistema do Conselho Federal de Contabilidade – CFC
Tabela 2
Se observarmos a tabela 1, em
conjunto com a tabela 2, percebe-se que a média de profissionais contábeis que
se registram no período de 2018 a 2024 aumenta anualmente em 2.816
profissionais. A média de escritórios que prestam serviços de contabilidade, no
mesmo período, aumenta em 5.297 escritórios.
Desde 2018 até 2024, 212.172 bacharéis se formaram. No mesmo período, houve somente um aumento de 16.898 registros.
Tirante as questões do FIES e da implantação e sedimentação do EAD na educação brasileira, o gráfico 1, a seguir, desta feita de 2011 a 2024, aponta a relação registros no sistema CFC e concluintes de Ciências Contábeis. Notem que os registros no CFC permanecem relativamente estáveis, todavia, os concluintes em Ciências Contábeis oscilam de forma abrupta
Gráfico 1
A tabela 3 apresenta o número de empresas MEIs, Micros, Pequenas, Médias e Grandes no Brasil registradas nos órgãos governamentais.
Notem que o número de empresas, exclusive MEIs, em 2024 é de 6,4 milhões. O nº de profissionais registrados (Contadores e Técnicos) é de 528.413, isso dá cerca de 12 empresas por profissional, porém, se incluirmos os MEIs, esse ticket médio se eleva para 42 empresas por profissional registrado.
Tabela 3
A média de empresas, exclusive MEIs, entre 2018 e 2024 foi de 5,9 milhões de empresas entre micro, pequenas, médias e grandes. Este dado coloca na análise uma camada de complexidade bastante interessante, isto porque, enquanto nas "fábricas" de novos contadores, universidades, centros universitários e faculdades, as matrículas e concluintes reduzem-se drasticamente, o mercado de trabalho e o empreendedorismo contábil continuam se expandindo. Observe, contudo, que há uma armadilha aqui, o número médio de concluintes/ano desde 2018 até 2024 é de 30.310 bacharéis, dos quais apenas 2.816 profissionais, em média, se registram no sistema CFC.
Prováveis motivos para não haver registros no CFC
Uma indagação emerge imediatamente após análise das tabelas apresentadas: Aonde estão os outros 27.494
concluintes em média que NÃO se registraram nos Conselhos Regionais de Contabilidade?
Tais dados estão a revelar uma provável
crise de identidade, de regulação e de regularização sem precedentes na história da
contabilidade brasileira. O cenário não é apenas de escassez, mas de uma
"fuga" massiva entre a colação de grau e o exercício legal da
profissão.
Dado que apenas 9,2% dos
bacharéis formados anualmente estão ingressando formalmente no mercado, via CRCs,
eis a pergunta que não quer calar: Por onde escapam e por quais motivos estes
27,5 mil profissionais não se registram no sistema?
Um dos motivos certamente é o Exame
de Suficiência, ou seja, um teste a mais, um único teste a mais, além dos, no
mínimo 8 testes que os formandos fizeram nas escolas de nível superior tende a
provocar tal situação. Tudo leva a crer que os formandos não são aprovados no
Exame de Suficiência devido provavelmente à baixa qualidade dos cursos de
Contabilidade nas chamadas “Uniesquinas”, as quais operam como verdadeiras
empresas, buscando margem e share e que formam a grande maioria de formandos,
os quais são “aprovados” nas escolas, mas reprovados numa única prova, que é a
do exame de suficiência.
Segundo o CFC, a taxa de
reprovação oscila entre 75% e 85%, conformando um descompasso abissal entre a
qualidade do ensino superior e a exigência da prova, a qual, ao fim e ao cabo,
apresenta a realidade do mercado. Resumo: Temos um exército de bacharéis, em
tese, sem conhecimento acadêmico e sem o "selo" legal para assinar
balanços.
Outro motivo pode residir no fato de que
parte destes, em média, 27,5 mil profissionais não abandonam a área contábil mas passam a
atuar em funções que tecnicamente não exigem o registro, embora utilizem o
conhecimento contábil, tais como, Analistas e Assistentes que atuam dentro de
empresas ou escritórios sob a supervisão de um contador com registro ativo no sistema CFC.
Há ainda o fato de que Consultores Financeiros e de BPO, que: vendem serviços de gestão financeira, mas que não exigem assinatura de balanço, fugindo da fiscalização dos conselhos. Outro motivo pode ser a migração para Auditoria/TI, posto que migram para áreas de Compliance ou implantação de ERPs, onde o registro profissional é secundário frente à habilidade técnica.
As leis ordinárias citadas enumeram algumas atividades exclusivas de Contadores e obriga o registro profissional no CFC por quem as exerça. São elas: Auditoria Contábil/Independente, Perícia Contábil, Elaboração de Demonstrações Contábeis, Responsabilidade Técnica pela Escrituração Contábil, Revisão de Demonstração Contábil e Responsável por Organização Contábil.
Saindo das generalizações das lei ordinárias, o CFC, especifica, via Resolução 1640/2021, enumerando 32 atribuições privativas de Contador e 27 atividades compartilhadas.
Convenhamos, é muita atividade para tão poucos registros relativamente aos concluintes das Ciências Contábeis.
Há uma outra questão a ser lembrada, qual seja, a fragmentação do Mercado (Escritórios vs. Profissionais), ou seja, o dado de que o número de escritórios cresce 5.297/ano, enquanto o saldo de profissionais cresce apenas 2.816/ano, é a prova matemática da pulverização em múltiplas atividades. Isso pode sugerir que profissionais antigos estão se desmembrando de grandes escritórios para abrir consultorias individuais ou digitais.
Fica claro portanto que haverá inviabilidade
de escala, isto porque sem novos profissionais registrados para contratar, os
5.297/ano novos escritórios terão dificuldade extrema em crescer. Eles podem nascer
e permanecer "micro", limitando a capacidade de atendimento do país.
Com o aumento geométrico de 1,7%
a.a. das empresas (não MEIs), poderemos ter o fenômeno chamado “valorização da
assinatura”, onde o registro no CRC se tornará um ativo financeiro de alto
valor. Como apenas uma fração mínima se registra, a responsabilidade técnica (o
"assinar o balanço") será cobrada como um serviço premium. O contador
registrado deixará de ser um executor para ser um avaliador de riscos e
garantidor de conformidade.
Evidente que haverá sem dúvida risco de irregularidades, podendo induzir o mercado a suportar uma explosão de "contabilidade paralela" ou serviços de consultoria que beiram o exercício ilegal da profissão. Isso forçará o CFC a aumentar a fiscalização ou repensar o modelo de acesso à carteira profissional.
Considerações Finais
O Brasil está formando apenas
pouco mais de 17% dos futuros bacharéis que se matriculam, portanto, habilitando Contadores em conta-gotas.
Se essa barreira (Exame de
Suficiência + Desinteresse pelo Registro) não for resolvida, nos próximos anos,
2030 provavelmente, teremos um mercado saturado de "conhecedores de
contabilidade" sem autorização legal para o exercício da profissão ou a exercendo sem algum registro no sistema CFC. Cabendo a ponderação de que um
pequeno grupo de Contadores registrados deterá o monopólio de um mercado provável de 8 milhões de empresas, exclusive MEIs.

